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Adoração Íntima

«No jardim»: o hino que nasceu num porão sem janelas, na manhã em que Maria Madalena ouviu o seu nome

Por Matias

Ficha técnica: Canção: «In the Garden» («No jardim»). Autor: C. Austin Miles (1868–1946). Ano: 1912 (publicada em 1912 em «The Gospel Message No. 2»).

O contexto: o farmacêutico que vivia entre partituras

Charles Austin Miles não era um pregador famoso nem um músico de concerto. Era farmacêutico de ofício, e durante trinta e sete anos trabalhou como editor e gerente da Hall-Mack, uma editora de música evangélica dos Estados Unidos. Sua vida transcorria entre frascos e partituras: de dia atendia o seu trabalho, e nas horas livres dedicava-se a duas paixões discretas, a fotografia e os hinos. No porão de sua casa em Pitman, em Nova Jersey, tinha seu quarto escuro para revelar fotografias, e ali, junto às bandejas e aos frascos de produtos químicos, tinha instalado também um pequeno órgão. Trinta e sete anos editando os cantos dos outros lhe ensinaram algo que não se aprende nas escolas de música: que um hino não precisa ser complicado para durar, precisa ser verdadeiro.

Miles amava um capítulo da Bíblia acima dos demais: o capítulo 20 do Evangelho de João. Ali se conta a manhã mais estranha e mais bela da história: a primeira manhã da ressurreição, vista através dos olhos de Maria Madalena.

Maria era de Magdala, um povoado de pescadores na margem ocidental do mar da Galileia. O Evangelho de Lucas conta que Jesus havia expulsado dela sete demônios, e desde então ela o seguiu com uma lealdade que não se quebrou nem mesmo ao pé da cruz: esteve ali quando o crucificaram, viu onde o sepultaram, e no domingo de manhã, quando ainda estava escuro, foi a primeira a chegar ao sepulcro. Encontrou-o aberto e vazio. E ficou chorando do lado de fora, sem entender nada, com o coração partido pela segunda vez em três dias.

Esse é o ponto de partida do hino: uma mulher que perdeu tudo, parada diante de um túmulo vazio, prestes a ouvir uma única palavra que vai mudar tudo.

O momento decisivo: a visão no quarto escuro

Um dia de março de 1912, Miles desceu ao porão de sua casa com a Bíblia na mão e abriu João 20. O lugar não podia ser menos parecido com um jardim: sua própria bisneta o descreveria anos depois como um porão frio, triste e com goteiras, que nem sequer tinha uma janela, e muito menos vista para um jardim. Mas ali, entre o cheiro dos produtos químicos e a luz fraca de uma lamparina, aconteceu algo que ele mesmo contaria depois ao seu colega George W. Sanville, que o publicou em seu livro «Forty Gospel Hymn Stories» em 1943.

Enquanto lia, a cena do Evangelho ficou tão viva para ele que sentiu que estava dentro dela. Estas foram suas palavras: «Ao lê-lo naquele dia, pareceu-me fazer parte da cena. Tornei-me uma testemunha silenciosa daquele momento dramático na vida de Maria, quando ela se ajoelhou diante do seu Senhor e clamou: “Raboni!”. Sob a inspiração desta visão escrevi tão rápido quanto as palavras podiam ser formadas. O poema é exatamente como tem aparecido desde então.»

Miles viu Maria deixar o túmulo, caminhar até o jardim e encontrar-se com o Mestre, que a chamou pelo seu nome. E naquele instante entendeu que o hino não era sobre um jardim, e sim sobre um encontro: o momento em que o Jesus ressuscitado se aproxima de uma pessoa quebrantada e a chama pelo seu nome, como quem chama um amigo.

Há um detalhe do relato bíblico que torna o hino ainda mais belo: quando Maria se vira, não reconhece Jesus. Pensa que é o jardineiro, e pergunta onde levaram o corpo do seu Senhor. O jardineiro. Sem saber, ela acerta: está falando com aquele que cultiva a vida, com aquele que faz florescer o que estava morto. E então Jesus diz uma única palavra — o nome dela — e os olhos de Maria se abrem. «Maria!» E ela responde: «Raboni!», Mestre.

Ele escreveu o poema de uma só vez, e nessa mesma tarde compôs a música. À melodia chamou simplesmente «Garden», jardim. E a primeira estrofe, que milhões de crentes cantam até hoje, diz assim:

«Venho sozinha ao jardim / enquanto o orvalho ainda está nas rosas; / e a voz que ouço, caindo sobre o meu ouvido, / o Filho de Deus revela.»

Uma nota honesta dos hinólogos: o longo passeio e a conversa sem fim do refrão — «Ele caminha comigo, e Ele fala comigo» — são licença poética. O Evangelho de João conta um encontro bem mais breve: Jesus a chama pelo seu nome, ela responde «Raboni!», e Ele a envia imediatamente a anunciar aos seus irmãos que ressuscitou. Tampouco há rosas nem orvalho no texto bíblico. Mas a força do hino não está na cronologia literal, e sim na verdade que ele guarda: o Cristo ressuscitado não se anuncia com trovões nem com multidões, e sim chamando cada pessoa pelo seu nome, na intimidade, como num jardim ao amanhecer.

O legado: o hino que se canta nas manhãs de Páscoa e nos funerais

«In the Garden» foi publicado nesse mesmo ano, 1912, na coletânea «The Gospel Message No. 2» da Hall-Mack, como o canto número 45. No início avançou devagar, como quase todos os hinos, até que as campanhas evangelísticas de Billy Sunday o levaram por todo o país: dois membros de sua equipe, Homer Rodeheaver e Virginia Asher, cantavam-no em cada cidade, e o público o aprendia de ouvido. Logo se disse dele que, junto com «A velha cruz», era um dos hinos gospel mais populares já escritos.

Desde então não parou de soar. Artistas de todos os estilos o gravaram, de Elvis Presley a corais de igreja do mundo inteiro, e ele é cantado em dois momentos que parecem opostos e no fundo são o mesmo: nos cultos da manhã de Páscoa, quando a igreja celebra que o túmulo está vazio, e nos funerais, quando uma família que chora precisa crer que a morte não tem a última palavra. Nos dois casos, o hino diz a mesma coisa: que Jesus continua caminhando com os seus e continua chamando-os pelo seu nome. Por isso alguns o criticam como sentimental demais, e por isso mesmo outros o defendem: porque não fala de teologia abstrata, e sim da experiência mais pessoal da fé, a de saber-se conhecido pelo Senhor na intimidade, a sós, como Maria no jardim.

Miles morreu em 1946, depois de quase quatro décadas a serviço da música da igreja. Nunca foi uma celebridade, nunca procurou sê-lo. Mas deixou um hino que acompanhou mais de um século de manhãs: manhãs de Páscoa, manhãs de luto, manhãs comuns em que alguém, sozinho, precisa ouvir que não está só. Tudo isso nasceu num porão sem janelas, de um homem que leu um capítulo da Bíblia e ficou dentro da cena até que a cena se tornou canção.

Cada vez que alguém canta «No jardim», está repetindo o gesto de Maria Madalena naquela manhã: ir ao lugar da dor com as mãos vazias, e descobrir que Alguém estava esperando ali, e que conhece você pelo seu nome.

Um versículo para conectar

«Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni (que quer dizer, Mestre).» (João 20:16, Almeida).

Uma única palavra bastou. Não um sermão, não uma explicação, não uma prova: o nome dela. É assim que Jesus continua chamando hoje quem se aproxima dEle com o coração partido: pelo seu nome, na intimidade, como num jardim ao amanhecer.

Ouça a canção

Se você quiser cantá-la novamente com o coração nesta história, pode ouvi-la entre as canções de Jimmy Swaggart: sua versão de «No jardim» carrega a mesma intimidade que um farmacêutico encontrou num porão escuro em 1912, e soa hoje tão viva quanto antes.

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