Em 16 de abril de 1521, uma carroça entrou na cidade alemã de Worms enquanto multidões enchiam as ruas para ver o homem que viajava nela. Viajava um monge agostiniano de trinta e sete anos, convocado pelo imperador Carlos V para se retratar de seus escritos. O papa já o havia condenado, e muitos dos que o viram passar naquele dia estavam convencidos de que ele não sairia vivo da cidade: cem anos antes, outro reformador, Jan Hus, havia sido queimado na fogueira depois de receber um salvo-conduto parecido. Martinho Lutero sabia disso. E mesmo assim subiu na carroça e viajou.

A tradição conta que, durante aquela viagem rumo ao desconhecido, Lutero e seus companheiros cantaram um cântico que ele mesmo havia composto. Não temos a partitura daquele momento nem um registro que o comprove, e os estudiosos discutem os detalhes; mas a imagem resume bem o que este hino tem sido durante cinco séculos: a canção daqueles que caminham rumo ao perigo com a certeza de que Deus é a sua fortaleza. Chama-se “Castelo forte é o nosso Deus”, e a história o conhece como o hino de batalha da Reforma.
O monge que pôs música numa revolução
Para entender o hino é preciso entender o homem. Martinho Lutero não foi apenas o reformador que afixou suas teses na porta de Wittenberg em 1517: foi um músico de coração. Tocava alaúde, cantava com a família ao redor da mesa e chegou a dizer que o diabo odeia a música sacra quase tanto quanto a Palavra de Deus, porque não suporta a alegria. O historiador Philip Schaff resumiu seu legado numa frase memorável: a Lutero pertence o mérito de ter dado ao povo alemão a Bíblia em seu próprio idioma, o catecismo e o hinário, para que Deus lhes falasse diretamente em sua Palavra e eles pudessem responder-lhe diretamente com suas canções.
Até então, nas igrejas, o canto era em latim e feito pelo coro; o povo apenas ouvia. Lutero mudou isso para sempre: escreveu hinos em alemão, com melodias simples que qualquer camponês podia cantar, e os pôs na boca da congregação. A Reforma não foi apenas pregada dos púlpitos: foi cantada nas praças, nos lares e nos caminhos. E de todos esses cantos, um se elevou acima dos demais.
1527: o ano das trevas
O hino nasceu em tempos sombrios. Por volta de 1527, a peste assolava Wittenberg, e Lutero — já casado com Catarina de Bora e pai de família — recusou-se a fugir: ficou para cuidar dos doentes e enterrar os mortos, enquanto ele mesmo adoecia e sofria crises de angústia. De fora, as ameaças não cessavam: o imperador e os príncipes católicos pressionavam para esmagar o movimento evangélico, e os reformadores viviam sob a sombra da perseguição.
Foi nesse contexto, entre 1527 e 1529, que Lutero escreveu “Ein feste Burg ist unser Gott” (“Castelo forte é o nosso Deus”), compondo ele mesmo tanto a letra quanto a melodia. O hino foi publicado pela primeira vez em 1529 em Wittenberg. Os estudiosos propuseram várias ocasiões que podem tê-lo inspirado: a homenagem ao seu amigo Leonhard Kaiser, executado por sua fé em 1527; o protesto dos príncipes evangélicos na Dieta de Speyer em 1529, de onde nasceu a palavra “protestante”; ou a entrada dos príncipes luteranos em Augsburgo em 1530, cantando-o a plenos pulmões antes de apresentar a Confissão de Augsburgo. Seja qual for a faísca exata, o fogo é o mesmo: um homem e um povo cercados de inimigos, cantando que Deus é o seu refúgio.
“Deus é o nosso refúgio e fortaleza”
A letra é uma paráfrase do Salmo 46, que começa com essas palavras: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia”. Lutero tomou aquele salmo dos filhos de Corá —“o Senhor dos exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio”— e o transformou em teologia cantada, estrofe por estrofe.
A primeira estrofe declara a confiança: “Castelo forte é o nosso Deus, espada e bom escudo; com seu poder defende os seus em todo transe agudo”. A segunda encara o inimigo de frente, sem disfarces: “Com fúria e com afã nos persegue Satã; por armas deixa ver astúcia e gran poder, qual ele não há na terra”. Lutero não minimizava o perigo: nomeava-o. Mas a terceira estrofe responde com a vitória já conquistada: ainda que o mundo se encha de demônios, um só, Cristo, vence a todos; a Palavra permanece. E a última estrofe fecha com a confissão que selou a Reforma: “o reino de Deus é eterno” — o reino permanece para sempre, ainda que nos tirem os bens, a honra e a vida.
Quatro estrofes, e em cada uma, o evangelho completo: um Deus todo-poderoso, um inimigo real, um Salvador vitorioso e um reino inabalável. Por isso o poeta Heinrich Heine o chamou de “a Marselhesa da Reforma”: não era apenas uma canção, era o hino nacional de um povo que havia encontrado sua liberdade no evangelho.
O hino que cruzou fronteiras
Da Alemanha, o hino começou uma viagem que não parou mais. Os príncipes evangélicos o cantaram ao entrar em Augsburgo em 1530, e dali se espalhou por toda a Europa com a Reforma. Cruzou o Canal da Mancha, chegou à Escandinávia e, com os missionários e os hinários, ao resto do mundo. Foi traduzido para dezenas de idiomas — para o inglês, entre outros, por Thomas Carlyle com sua versão “A safe stronghold our God is still” — e em cada língua manteve seu fio: a certeza de que, quando tudo treme, Deus não se move.
Sua melodia, composta pelo próprio Lutero, revelou-se tão poderosa quanto sua letra. Johann Sebastian Bach a tomou como tema de sua cantata “Ein feste Burg ist unser Gott” (BWV 80) e de prelúdios corais para órgão. Felix Mendelssohn a incorporou ao movimento final de sua Quinta Sinfonia, conhecida como “Reforma”. Giacomo Meyerbeer a usou como motivo recorrente em sua ópera “Os Huguenotes”, sobre os protestantes franceses perseguidos. Também a empregaram Telemann, Buxtehude, Max Reger numa fantasia coral para órgão e Richard Strauss em sua ópera “Friedenstag”. Poucas melodias nascidas para serem cantadas numa igreja caminharam tão longe: da congregação de Wittenberg às grandes salas de concerto do mundo.
Wartburg: o castelo da história
Há um castelo real por trás da metáfora. Em 1521, depois da Dieta de Worms, o eleitor Frederico, o Sábio, forjou o sequestro de Lutero para salvar-lhe a vida e o escondeu no castelo de Wartburg, que domina a cidade de Eisenach. Ali, disfarçado e sob o nome de “cavaleiro Jorge”, Lutero passou quase um ano traduzindo o Novo Testamento para o alemão: a obra que poria a Palavra de Deus nas mãos do povo.
Quem já subiu a Wartburg diz que de seus muros o hino se entende de outra maneira: pedra grossa, torres firmes, um refúgio no alto enquanto abaixo rugem as ameaças. Lutero conhecia essa sensação na própria carne: escondido num castelo de pedra enquanto o império o caçava. Anos depois, ao escrever “Castelo forte é o nosso Deus”, não estava inventando uma imagem poética: estava descrevendo o que havia vivido. Deus havia sido, literalmente, o seu castelo.
Castelo forte, em nossa língua
Ao mundo de língua portuguesa o hino chegou com os hinários evangélicos, e gerações de crentes o têm cantado em cultos, vigílias, campanhas evangelísticas e momentos de provação. Soa diferente em cada época, mas diz o mesmo: quando a doença bate à porta, quando a economia balança, quando a fé custa caro, há um castelo que não se rende.
Ocupa um lugar de honra entre os louvores cristãos que têm sustentado o povo de Deus em tempos difíceis, e cada vez que é cantado nos devolve àquele monge na carroça rumo a Worms, àquele tradutor escondido em Wartburg, àqueles príncipes entrando em Augsburgo: homens e mulheres que perderam quase tudo, menos a certeza.
O que esta história nos deixa
Lutero escreveu dezenas de hinos, mas este sobreviveu a todos porque não nasceu do conforto, e sim da tempestade. Não o compôs um teólogo em seu escritório em tempos de paz: compô-lo um homem doente, ameaçado e cercado pela peste, que havia aprendido na própria carne que Deus é refúgio e fortaleza.
Da próxima vez que cantarmos “Castelo forte é o nosso Deus”, lembremos de onde ele vem: de uma viagem a Worms da qual seu autor poderia não voltar, de um castelo no alto de uma montanha onde a Bíblia foi traduzida às escondidas, de um salmo antigo que promete que, ainda que a terra se mude e os montes se afundem no mar, não temeremos. Cinco séculos depois, o castelo continua de pé. E continuará, porque — como diz a última estrofe — o reino de Deus permanece para sempre.
